Certa vez eu estava conversando com dois conhecidos meus, um
nascido e criado em Nova Iorque e hoje morando em Maryland, EUA, o outro,
nascido em Ohio e também hoje mora em Maryland. Estávamos falando sobre como
funcionam as coisas aqui no Brasil e lá nos EUA. Em certo momento, eu comentei
que lá eles não pagam pra ter ensino de qualidade para seus filhos e que no
Brasil temos que pagar escolas particulares se quisermos bom ensino. Os dois
retrucaram, indignados, quase ao mesmo tempo: “é claro que pagamos para ter ensino
de qualidade aqui nos EUA! Nós pagamos impostos”!
Aí é onde está a grande diferença. Não nos impostos ou na
escola pública, mas na mentalidade. O brasileiro pensa e age como se a escola
pública fosse de graça. O americano pensa e age como quem paga pela escola
pública quando paga seus impostos. Na forma brasileira de pensar, a escola é
gratuita, o que faz com que qualquer resultado que venha de lá seja aceito pela
sociedade. Faz também com que os professores faltando às aulas não sejam
cobrados por ninguém, com que o desvio de verba da merenda ou dos livros seja o
roubo do dinheiro da escola e não o meu ou o seu. Do ponto de vista americano,
enxergando que o cidadão paga a escola com o dinheiro dos impostos, ele cobra
um ensino de qualidade para seus filhos, pois o dinheiro dele está investido
ali, ele não aceita que o filho dele tenha “tempo vago” durante as aulas, por
causa de ausência injustificada de um professor (a escola consegue logo um
substituto) e, caso aconteça algum desvio de verba, ele se sente roubado,
porque aquele dinheiro foi ele quem suou para ganhar e investiu (sim, investiu)
na escola para educar seu filho.
O mesmo raciocínio se aplica para saúde, segurança, justiça...
enfim, todas as áreas de responsabilidade do governo.
No Brasil, tratamos o dinheiro público como se fosse dinheiro
público. Isso significa dizer que tem uma entidade abstrata que é dona do
dinheiro. O nome dessa entidade é governo. Ninguém sabe direito o significado real disso. Mas na verdade o dinheiro público é nosso! Ele pertence a cada
cidadão! Se no Brasil temos em torno de 200 milhões de habitantes, isso
significa que de cada 200 milhões de tijolos que constituem as paredes de
prédios públicos, um tijolo é meu, um tijolo é do meu irmão, um tijolo é da
minha esposa, um tijolo é da minha mãe e por aí em diante. E isso também
significa que um tijolo também é seu! De cada 200 milhões de reais de dinheiro
público, um real é meu, um real é da minha esposa, um real é seu... Já deu para
entender, não é?
Bom, vamos colocar em números: se na construção do tribunal
de São Paulo foram desviados 169,5 milhões de reais de dinheiro público, isso
quer dizer que você foi roubado em 85 centavos. Parece pouco. Mas vamos
continuar: no assalto ao Banco Central, em Fortaleza, foram roubados em torno
de 164,7 milhões de reais de dinheiro público, afinal, o Banco Central é
público, logo, você foi roubado em mais 82 centavos, já totalizando 1,67 reais.
Ainda parece pouco, mas até agora só somamos dois casos conhecidos. A quanto
vocês acham que chega a soma total do valor que você foi roubado se somarmos
todos os casos conhecidos?
Agora pense no seguinte: com esses seus míseros 250 reais
por ano bem investidos pelo governo, você não precisaria pagar 400 reais por
mês de plano de saúde para você e sua família, pois teríamos bons hospitais
públicos, não precisaria pagar 800 reais por mês de escola para cada um de seus
filhos, pois teríamos boas escolas públicas, não precisaria pagar 400 reais de
condomínio todo mês ou ter um sistema de segurança instalado em casa, pois
poderíamos viver em casas com boa segurança pública e assim por diante. Logo, o
roubo dos seus míseros 250 reais por ano, acabam te custando, no mínimo, 1600
reais todo mês.
Não seria bem mais barato tratarmos o dinheiro público como
NOSSO DINHEIRO, para que nosso dinheiro possa ser bem aplicado e tenhamos
sobras desse nosso dinheiro para lazer, atividades extras, investimento... ?
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