Vejo e ouço diariamente, em todos
os meios de comunicação, vindos de vários analistas/especialistas (que não são
necessariamente a mesma coisa), relatórios dos problemas do Brasil. Uns
defendem que a corrupção deve ser combatida, outros que a inflação deve ser
contida ou que o mercado deve ser estimulado, entre tantos outros que se eu
decidisse citar aqui precisaria de um livro, no mínimo.
Mas dia desses li uma matéria de
J.R. Guzzo, da revista Veja, publicada no blog Diplomatizzando, do diplomata P.R. de Almeida, que entendo ter se
aproximado do âmago da questão. Na verdade, o título dado por Almeida ao post é
que se aproxima mais do que acredito ser o cerne de todos os problemas
administrativos da nação: “O Brasil perdeu qualquer sentido do que seja ética
publica, em todos os escalões.”
Já há algum tempo tenho dito, em
rodas de amigos (pois é meu único campo de atuação, já que não pretendo me
tornar um militante nem influenciar as massas), que o problema de nosso Estado
é somente um: O brasileiro, em todas as esferas da sociedade, acredita que o
que é público não tem dono. Isto torna todos os bens públicos, incluindo-se
terras, prédios, numerário, contratos... enfim, tudo o que é público,
disponível para ser usurpado por quem tiver a primeira oportunidade e a coragem
de fazê-lo. E nem é preciso muita coragem, já que a impunidade é a regra no
país e não uma exceção.
Quando um cidadão vê no
noticiário da televisão que algum político ou funcionário público recebeu
propina de algum empresário que ganhou alguma vantagem ou se juntou com este
para desviar dinheiro público, ele não mais fica indignado. Tornou-se algo
cotidiano. E quando fica indignado, não é pelo malefício causado, mas sim
porque eles próprios não podem ficar com uma parte deste dinheiro sujo. O
brasileiro comum reclama por não poder participar do esquema, porque como ele
mesmo diz: “ah, também! É fácil demais roubar neste país! Se fosse eu lá também
pegava a minha parte. Todo mundo pega...”
Mas o grande ponto desta minha
opinião é que o problema é muito mais profundo do que o exemplo anterior possa
fazer parecer. O “xis” da questão é que as pessoas aplicam este raciocínio,
transformando-o em ações no seu dia a dia, quando furam filas de banco ou de
elevador, quando entram na fila e passam no caixa rápido do supermercado com 35
itens no carrinho, quando a enorme placa indica que o limite é de 20 itens, só
porque aquela fila é mais rápida. O que essas pessoas não percebem é que elas
estão lesando alguém. Quando ela fura a fila de um banco, todos depois dele
ficarão mais tempo no banco aguardando atendimento porque sua vez de ser
atendido demorará mais a chegar. Quando fura a fila do elevador, quem ocuparia
o último lugar disponível naquele elevador terá que esperar pelo próximo, pois
seu lugar foi ocupado pelo “espertinho”. E quando passa no caixa do
supermercado com mais itens que o permitido para o caixa rápido, o caixa deixa
de ser rápido, pois está atendendo um cliente, o “espertinho”, que demorará
muito mais que a média de tempo de atendimento de clientes do caixa rápido e
todos os demais clientes ficarão mais tempo na fila. “Mas e daí?” – diz o
espertalhão. “Danem-se. Não sou eu que estou esperando.” É, pode não ser você
hoje, mas com certeza você também já foi vítima de algum espertalhão e se deu
mal.
Estes foram só alguns exemplos
que me vieram à mente enquanto escrevia estas linhas, mas o assunto é
inesgotável. E para quem possa pensar que estou falando das camadas mais baixas
da sociedade, esclareço que os exemplos que citei neste texto são fatos
observados por mim dentro do meu grupo de relacionamento, que é feito de
engenheiros, contadores, médicos, enfermeiros, professores e estudantes. É uma
fatia da sociedade com excelente educação, boa formação moral e um bom salário.
Se eles pensam e agem desta forma, imagina o povo que não tem acesso à educação
e à informação!
Enquanto o povo comum tiver a mentalidade de tirar vantagem pessoal em tudo, os políticos também terão. E além disso, o povo não achará que é errado tudo de absurdo que os políticos fazem.
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