Viajei recentemente à Alemanha e aos Estados Unidos, a
trabalho. Passei 3 meses nos Estados Unidos (onde cruzei quatro estados
dirigindo – Virginia, Maryland, New Jersey e New York, além de D.C.) e 2
semanas na Alemanha, tendo rodado de carro por mais de 1200 km na Alemanha e
mais um pouco (não sei quanto, mas bem menos) pela Holanda. Sabem o que vi por
lá? Gastos públicos com obras em estradas, reformas de edifícios públicos,
recapeamento de ruas, trocas de tubulações, entre outras. Qual o significado
disso?
Como já escrevi na descrição deste blog, sou leigo em
assuntos de política, economia e todos os outros tratados neste veículo. Porém,
me dou ao luxo de raciocinar e me questionar. E nesse caso, me questiono: será
que estes gastos públicos em obras justamente em um momento de crise não são
medidas de estímulo à economia? Desta forma, mantêm-se trabalhadores
empregados, com salários em dia para pagarem seus aluguéis, comprarem suas
roupas, seus eletrodomésticos, gastando com seu lazer, enfim, mantendo a
economia girando. O governo utiliza dinheiro público para ajudar a população,
distribuir renda. Mas em troca de trabalho, do suor de cada um. Claro que
existem também projetos assistencialistas, mas de tamanho limitado.
Meu padrinho, nascido na Espanha, criado no Brasil, foi ano
passado à sua terra natal. Ele nasceu em um vilarejo pequeno próximo a La
Coruña (ou A Coruña, como os galegos a chamam). Naquela região, talvez a mais
pobre da Espanha, que é um dos países muito afetados pela atual crise, também
estão sendo feitas obras públicas, principalmente nas estradas, com este mesmo
fim.
Enquanto isso, no Brasil... bolsa família, bolsa escola,
bolsa presidiário... Segundo o site do Ministério do Desenvolvimento Social (www.mds.gov.br/bolsafamilia), “o programa bolsa família é um programa de
transferência direta de renda que beneficia famílias em situação de pobreza e
de extrema pobreza em todo o país”. Fiz um cálculo rápido e sem ler muito, a
partir de dados do próprio site do ministério, e cheguei ao valor de até R$ 510,00
para uma família com cinco filhos de até 15 anos de idade. É um valor de R$ 102,00
per capita, cumprindo o objetivo do
governo de que todos tenham no mínimo R$ 70,00 por pessoa de renda mensal.
Agora vem o seguinte: os beneficiários do bolsa família são
pessoas que trabalham? Sim, muitas delas. E muitas outras que não trabalham. Se
a pessoa é analfabeta ou semianalfabeta, vivendo e empregado em área rural,
qual é o seu salário potencial? Se ele é beneficiário do bolsa família, é porque
a renda mensal per capita de sua
família é inferior a R$ 70,00. Ou seja, para a família do exemplo anterior, uma
renda familiar de no máximo 350,00. Se fosse maior que isso, não teria direito
à ajuda do Projeto (pelo menos é o que consta no site do MDS). Ora, a família
vive com R$ 350,00 mensais, trabalhando feito um burro de carga, de sol a sol,
debaixo de sol forte. Aí, vem o governo e dá para ele R$ 510,00 todo mês sem
cobrar que ele trabalhe. Você continuaria trabalhando? Pense bem e seja
honesto. Se você sair do emprego e receber o auxílio, você teve um aumento de
mais de 45% de sua renda, sem ter obrigação de trabalhar. Você trabalharia?
Duvido.
E qual o desdobramento desta situação? O desestímulo ao
trabalho, ao esforço próprio para melhorar de vida, à meritocracia e à
produtividade. Conheço pessoas que vivem ou viveram em grande parte do Brasil.
Só para citar um exemplo, alguns conhecidos meus, que têm “roças” no interior
do Piauí e do Ceará reclamam que não conseguem trabalhadores para “roçar” os
campos, pois eles estão satisfeitos com os benefícios dados pelo governo.
Devemos então abandonar esta parte do povo para que continue
ganhando um salário de miséria? Eu digo que não. Mas porque não aprender com os
países desenvolvidos, apreender a essência de seus programas e aplicá-la (a
essência) da forma que caiba na realidade brasileira? Que o governo utilize sim
o dinheiro público para assistencialismo, pois é necessário, mas que ao mesmo
tempo cobre algo em troca, algum suor, com o investimento em obras de interesse.
Ou no Nordeste não são necessários açudes? Ou no norte não são necessárias
estradas? Ou no Brasil inteiro os portos e aeroportos não precisam ser
modernizados? Ou não poderíamos construir estradas de ferro para facilitar o escoamento
da produção agrícola do interior para os portos? E enquanto isso se fornece
educação pública de qualidade para que os filhos dessas pessoas não precisem
desse assistencialismo no futuro, fazendo com que o Programa seja temporário,
paliativo, enquanto o problema real, o da educação, é resolvido em paralelo. E
quando eu digo educação, digo preparação para o mercado de trabalho,
qualificação profissional de nível médio e técnico. Que cada um se vire com seu
próprio esforço a partir daí, pois quem se esforçar estará preparado e quem não
estiver preparado será por falta de vontade. Será que o dinheiro gerado com o
suor da classe média deve ser dado de graça?
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